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Sexta-feira, 26 de Maio de 2006

ANTÓNIO MENANO - FADO DE COIMBRA

    Nascido nas fraldas da Serra da Estrela (Fornos de Algodres) de uma família de 12 irmãos, ANTÓNIO MENANO foi sem sombra de dúvida o mais conhecido e popular cantor de fados de Coimbra. Tal como Hilário, o fabuloso cantor boémio seu antecessor, também António Menano cedo se tornou ídolo da Academia, enrequecendo o espírito estudantil de Coimbra e a lenda Coimbrã de uma certa boémia própria da juventude, de fados e serenatas, misto de arte e romantismo, de sonhos e ilusões. António Menano está tão intimamente ligado ao Fado de Coimbra e este a ele que verdadeiramente não se pode dissociar um do outro. Falar de António Menano é falar do Fado de Coimbra e da década de oiro. Segundo nos conta João Seabra (n.º 56 de jan fev de 1944, da Revista Turismo), a lembrança e a saudade do Hilário foram esmorecendo com o tempo mas as guitarradas e os cantores continuaram a ouvir-se no Mondego. Um dia todos os rouxinóis se calaram para ouvir um outro que erguia mais alto os seus harmoniosos trinados, o estudante António Menano . Mais nos conta que a recordação do seu nome traz á memória a loucura que se apossou de Coimbra e, depois, de Lisboa e de todas as terras do País, para ouvirem a sua voz de tenor. Diz-nos ainda que iam a Coimbra milhares de pessoas só para o ouvir cantar e, em Lisboa, nalgumas festas em que participou, mesmo em recintos de grande lotação, como o Coliseu e o Jardim Zoológico, os bilhetes se esgotavam e a ansiedade para o ouvir era enorme, tendo-lhe sido prestadas ovações "como raras vezes se fizeram ás maiores celebridades líricas". O Dr. João Falcato vai até mais longe e afirma que essas ovações apoteóticas nunca se fizeram às maiores celebridades líricas in Coimbra dos Doutores, 1957, p á g.169).                                         
                                                                                                                              
    Os chamados irmãos Menano Franscisco , Horácio, António e Alberto) constituíram a mais famosa e fecunda plêiade de finos artistas que passou por Coimbra, precedida por outros dois Menanos , José Paulo  Menano e  Paulo da Costa Menano   (ambos formados em 1901 e 1903 respectivamente) que se notabilizaram em récitas e outras actividades artísticas.                                                                                                             
                                                                                                                              
    Matriculado na Universidade, António Menano vê despontar a sua estrela em março de 1915, quando canta um fado em Aveiro, num sarau organizado pela Associação Académica de Coimbra, com a participação da Tuna e do Orfeon . É nesse ano lectivo de 1914-1915 que se procede à reorganização do Orfeon   Académico, agora sob a regência do saudoso Dr. Elias de Aguiar e onde António de Menano se torna solista e ensaiador do naipe dos primeiros tenores, passando também a cantor "titular" de fados e canções nos Saraus e outros espectáculos e actividades que se realizavam.                                                                         
                                                                                                                              
    Talvez seja interessante abrir aqui um pequeno parentesis para referir que seu irmão Francisco, exímio guitarrista e excelente compositor, fora, anteriormente e até concluir o curso de Direito em 1912, ensaiador do naipe de segundos tenores do Orfeon , quando este era dirigido por António Joyce , e um dos guitarristas que habitualmente acompanhava António Menano era, além de Paulo de Sá,  Alberto Menano , seu irmão.  Um outro guitarrista que por vezes também o acompanhou foi o seu irmão Horácio Menano . Nos annos 20, Artur Paredes foi também um dos seus acompanhantes habituais.                      
                                                                                                                              
    No final desse ano lectivo, em 10 de Junho de 1915, na festa de homenagem a Camões promovida pelos alunos do Liceu José Falcão, de Coimbra, António Menano foi convidado a participar e, em vez dos habituais fados, surge a cantar um trecho de "Os Lusíadas" que fora musicado pelo j á referido Dr. Elias de Aguiar. É também em 1915 que surge a primeira edição musical com fados de autoria de António Menano , "Os três mais lindos fados de Coimbra" publicada pela Livraria Neves, à rua Larga, com o fado D'um olhar" ("As meninas dos meus olhos"), de Alexandre de Rezende , dedicado "ao António de Menano ", com quadras populares, sendo os outros fados de autoria de António Menano , o "Fado das Morenas" ("Todos gostam das morenas"), dedicado "ao Estevão Neto", com uma quadra popular e três  outras de Fernando Correia, e o "Fado da Noite" ("Há quem diga que quem chora") dedicado "ao J. Gambôa ", com cinco quadras de Alberto Fernandes Martins.                                                                                            
                                                                                                                               
    No ano lectivo de 1915-1916, em Fevereiro, na excursão do Orfeon Académico ao Porto, Braga e Vila do Conde, António Menano consagra-se definitivamente como estrela de primeira grandeza do meio artístico Coimbrão, acompanhado á guitarra por Paulo de Sá e Alberto Menano .                                                                                                               
                                                                                                                              
    Em 1918 António Menano passa a integrar a Direcção do Orfeon Académico e nas fogueiras de S. João desse ano novamente canta canções populares portuguesas, com muito agrado e satisfação dos presentes, e não fados.                                                                                       
                                                                                                                              
    Em Dezembro de 1919, a A. A. C. promove um Sarau Musical no Teatro Avenida, oerganizado pelo próprio António Menano , no qual também participa e cujo programa não contém qualquer fado ou guitarrada. E no Sarau promovido pelo Orfeon e pela Tuna no Teatro Sousa Bastos também não haveria fados nem guitarradas. No final de 1919 surge a primeira proibição de se fazerem serenatas. A imprensa local reage contra esta medida policial e a proibição, em vez de acabar com os fados e as guitarradas, provoca aparentemente o seu ressurgimento. Entretanto vem a lume uma colecção de edições musicais do "Reportório do Orfeon da Universidade", com fados de António Menano ("patriótico", "Da Granja", "Das Romarias", "Do Choupal", "Dos Passarinhos" e "Morena") que alcançaram enorme sucesso, tendo quase todos eles atingido a quarta edição antes de 1923, fados que também foram gravados em rolos para auto-piano .                                                     
                                                                                                                               
    Em Abril de 1923, António Menano , já casado mas ainda não formado, participa na digressão do Orfeon e a Tuna a Espanha, actuando em Salamanca, Madrid e valladolid . Na Monumental Praça de Madrid, na presença dos Reis de Espanha e encontrando-se a praça completamente cheia, António Menano obteve um retumbante sucesso repetindo os fados várias vezes, inclusive a pedido do Rei, sendo de notar que apesar de não dispor de qualquer amplificação sonora, a sua voz encheu a praça de toiros. A acompanhá-lo estiveram, como sempre, Paulo de Sá e Alberto Menano .                                                                                                 
                                                                                                                               
    Em Junho de 1924, o Orfeon Académico segue para Paris, onde actua no Trocadério , realizando depois saraus em Toulouse, Bordéus e Bayona . António Menano toma parte na digressão, cantando fados com Agostinho Fontes, acompanhados à guitarra por Manuel Paredes, outro grande guitarrista da época, tio do célebre Artur Paredes.                                        
                                                                                                                              
    Concluído o curso de Medicina, António Menano passa a exercer clínica em Fornos de Algodres, sua terra natal e onde seus pais, António da Costa Menano e D. Januária Paulo Menano , residiam. Embora já formado, continua muito ligado à vida artística e académica de Coimbra, onde certas tradições estudantis se revitalizavam.                                       
                                                                                                                               
    António Menano tornar-se-ia definitivamente o cantor de Coimbra mais conhecido e de maior fama em todo o país com gravações que fez entre os anos de 1927 e 1929, em Paris, Lisboa e Berlim, para a Companhia Odeon de Paris. De todos os cantores da chamada Década de Oiro da Academia de Coimbra, António Menano foi aquele que mais discos gravou e maior e mais estrondoso sucesso alcançou. Pena é que o seu espantoso talento de cantor não se possa aquilatar muito atrvés dos discos pois, além das gravações terem sido efectuadas por processos mecânicos, os acompanhamentos de guitarra e viola são, de uma maneira geral,  francamente modestos.

    Em 1929, por ocasião da célebre exposição Ibero - Amaricana de Sevilha, o Dr. António Menano , apesar de já ter concluido a sua formatura há alguns anos, foi cantor escolhido para a "Embaixada Artística" enviada pela Academia de Coimbra para actuar no festival oferecido aos Reis de Espanha aquando da inauguração do Pavilhão de Portugal e que era constituída por mais três elementos: Artur Paredes, solista e acompanhador; Afonso de Sousa, 2º guitarra; e Guilherme Barbosa, viola.

    Anos depois, em 1933, abandonando voluntáriamente a sua meteórica e impressionante carreira artística, que fora a mais prometedora da Década de Oiro (1920 a 1930), o Dr. António Menano parte para Moçambique onde exerce clínica durante quase 30 anos, pois só em 1961 regressaria definitivamente. A sua última residência foi na Rua José Falcão, n.º 57, 5º Esq.,  em Lisboa, onde viria a falecer.

                                       

    Entre as actuações de António Menano depois da sua ida para Moçambique podemos destacar as seguintes:

    Em outubro de 1956, em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, na Tapada de Ajuda, no célebre recital que deu, já sexagenário, e que constituiu um êxito retumbante. O espectáculo estava marcado para a meia-noite, começou às duas horas da manhã e só viria a terminar de madrugada sem que ninguém tivesse arredado pé. Do Diário de Noticias de 23-10-1956 respigamos o seguinte: "Até madrugada alta, com um céu em que a lua e as estrelas paradas pareciam acercar-se da terra, no sortilégio das canções de Menano ressurgiu Coimbra de h
á quatro décadas." Conclui dizendo "Sem luz eléctrica nem microfones a voz de Menano , casada com a das violas e guitarras, brindou Lisboa com uma noite inesquecivel, única. Espectáculo imprevisto e verdadeiramente sensacional..."

    De tempos a tempos aparecia em Coimbra e acabava sempre a cantar fazendo-o em qualquer sítio, desde que isso se proporcionasse; uma noite acabou por cantar nas escadas da secular Igreja de Santa Cruz, "feita de pedra morena", perante o entusiasmo e admiração da multidão que ali logo se juntou e que obrigou a parar o transito.
   
    Em 1967, dois anos antes da sua morte, teve ainda duas brilhantes actuações que foram bastante noticiadas e ficaram na lembrança. A primeira em Coimbra, na madrugada de 24 de Junho, do alto das escadarias da Sé Velha, por ocasião da reunião do Curso Jurídico de 1907-1912, de que fazia parte Francisco Menano , seu irmão, na Serenata Monumental que ali teve lugar com a participação  de três cantores de uma nova geração, José Manuel dos Santos, António Bernardino e Luis Goes.
     António Menano , que veio cantar quatro fados, provocou a maior admiração pela forma maravilhosa como um septuagenário conseguia cantar assim. A sua última actuação pública teve lugar em 16 de Dezembro por ocasião da inauguração em Lisboa da Galeria Rodin, do pintor Mário  Silva, que reuniu muitos antigos estudantes de Coimbra, entre os quais Luis Goes, Jorge Tuna, João Bagão. Aurélio Reis, Tossan e Vitorino Nemésio.  António Menano cantou duas das suas melhores interpretações, o "Fado dos Passarinhos" e  o " Fado da Ansiedade".

    António Menano morreu em 11 de Setembro de 1969 mas a sua memória perdura na nossa lembrança, e a saudade da sua voz pode ser algo mitigada ouvindo os discos que nos deixou.

    Na sua Terra Natal, Fornos de Algodres, tem uma Rua com seu nome.



publicado por Luis Pina às 13:16

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5 comentários:
De Fernando a 31 de Maio de 2006 às 11:31
Ora ai está uma personagem digna de ser relmbrada por todos deste concelho. Muito bom.


De soaresesilva a 20 de Fevereiro de 2008 às 01:24
Sou grande apreciadora do fado de coimbra e em especial de António Menano de que tenho alguns fados. Ando à procura do interprete duma bela poesia do Gonçalves Crespo, A SESTA. Poderia ter sido o Menano? Se tiver alguma informação, por favor dê-ma para o meu mail luisa34@netcabo.pt


De soaresesilva a 28 de Fevereiro de 2008 às 01:50
<poderias informar-me se o menano alguma vez cantou uma canção escrita por um compositor brasileiro Alberto Nepmuceno com letra do nosopoeta Gonçalves Crespo? A canãointitula-se "a sesta na rede" ando à procura desta canção e não a consigo encontrar.


De soaresesilva a 28 de Fevereiro de 2008 às 01:52
<poderias informar-me se o menano alguma vez cantou uma canção escrita por um compositor brasileiro Alberto Nepmuceno com letra do nosopoeta Gonçalves Crespo? A canãointitula-se "a sesta na rede" ando à procura desta canção e não a consigo encontrar.


De Tiago a 15 de Junho de 2008 às 03:57
penso que seria interessante acrescentar que Menano acabou por se tornar num cantor muito variado, tendo, inclusivamente, misturado alguns estilos diferentes, cantando fado de coimbra com guitarristas de lisboa e algumas músicas de suposto fado acompanhadas ao piano. foi, sem sombra de dúvida, uma grande figura do fado de coimbra, um dos melhores da década de 20, juntamente com Edmundo de Bettencourt e Manassés de Lacerda, entre outros...


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